“Esse moço é um crânio!”, derramou-se o vice-presidente José Alencar depois de meia hora de convívio com Roberto Mangabeira Unger. Ficou admirado ao saber que era filho de baiana com americano. Arregalou os olhos ao descobrir que estava falando com um professor de direito e filosofia da Universidade de Harvard. Nem pediu a alguém que traduzisse o palavrório sempre tropeçando no sotaque incomparável. Alencar é mineiro esperto. Para reconhecer um gênio, não precisa saber o que o gênio pensa.
Há coisas mais relevantes, e nenhuma faltava a Mangabeira. Os óculos de primeiro da classe. As lentes grossas de quem já lia os clássicos no colo da babá. A sobrancelha magnificamente arqueada no espetáculo da superioridade. A boca franzida de quem luta para conter o aparte tão luminoso quanto cruel. O queixo empinado que intimida ignorantes. O peito estufado do professor pronto para começar outra aula magna. A pose do especialista em tudo. Um crânio, reafirmou ao vice a procissão de assombros.
É de gente assim que o PR precisa, emocionou-se Alencar. E o crânio virou figurão do partido. É de gente assim que o Brasil precisa, recordou-lhe a veia patriótica. E, por insistência do vice, virou ministro o homem que, num artigo publicado na Folha de S. Paulo, acusou o presidente Lula de chefiar “o governo mais corrupto da História”. Para acomodá-lo, a frondosa árvore ministerial estendeu um novo galho, batizado de Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo. Sealopra não é uma boa sigla, compreendeu o governo no dia seguinte. Lembra os aloprados do senador Aloísio Mercadante.
Nasceu então a Secretaria de Assuntos Estratégicos, cujo comando Mangabeira Unger acaba de deixar ─ oficialmente, para voltar ao emprego em Harvard. Outra versão, bem mais verossímil, informa que o professor começou a transformar-se em ex-ministro quando comunicou a Lula que pretendia trocar o PR pelo PMDB. Soube que o cargo pertence ao vice-presidente e deve, portanto, ser ocupado por gente do seu partido. Só depois disso o ministro lembrou que, se não regressasse a Boston, teria de renunciar ao cacho de privilégios oferecido a um professor aposentado.
“Ele é o ministro das ideias”, impressionou-se Lula ao fim de uma conversa de 10 minutos, que o convenceu de que Mangabeira Unger merecia também o cargo de gerente-geral do Plano Amazônia Sustentável. Em duas semanas, o sotaque perdido na selva descobrira que ”Mato Grosso não é só Amazônia, é também Centro-Oeste”. Descobriria ainda no primeiro mês que o Amazonas não é só Amazônia, é também Noroeste, e que o Pará não é só Amazônia. É também Norte.
Em janeiro de 2008, baixou em Manaus com 37 assessores a tiracolo e uma ideia na cabeça. Que tal construir um aqueduto ligando a Amazônia ao Nordeste? Pareceu-lhe sublime a sacada: liquidar o flagelo da seca usando aquele colosso de lagos que parecem igarapés, igarapés que parecem rios, rios que parecem mares. O entusiasmo minguou quando soube que 700 mil habitantes de Manaus estão fora do sistema de abastecimento de água.
“Ele é só meio ministro”, explicou Lula a companheiros que ficaram surpresos com a nomeação de Mangabeira Unger. Sabe-se agora que o meio ministro é também meio bobo.
Fonte: Veja